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Geleia de morango e lembranças no jardim

Atualizado: há 2 dias



Tenho algumas memórias de infância que chegam pelo aroma, pela luz do fim da tarde ou pela sensação de estar em um lugar onde havia fartura, acolhimento e espaço para brincar. A casa da minha tia Amparo, em Brasília, é uma dessas memórias.

Tia Amparo fazia jus ao nome. Não teve filhos, mas sempre foi uma dessas mulheres que amparam a família inteira nos momentos de aperto. Era uma presença firme, generosa, alegre e acolhedora. Casada com o vô Alberto — que eu chamava de vô, e não de tio, pela diferença de idade entre os dois —, tia Amparo vivia em Brasília, em uma casa que, para mim, parecia enorme. E ele era vô mesmo, ainda que não fosse meu avô de sangue.

Era uma casa cheia de vida, sempre muito arrumada. Tinha um canteiro na frente, um portão baixinho, fogão à lenha no quintal, rede na garagem e uma cadeira de balanço na sala. Eu me lembro da copa com buffet, da mesa grande e da sensação de que sempre havia comida e gente por perto.

Na casa da tia Amparo, a mesa era farta: havia biscoitos, bolos e doces de frutas. E sempre — não é exagero — havia uma vasilha enorme de pão de queijo. O vô Alberto gostava mais dos salgados: costela com aipim, frango com quiabo.

Mas, entre tantas lembranças daquela casa, uma me acompanha até hoje com um brilho muito particular: os morangos.

Em uma dessas férias, tia Amparo plantou morangos em um vaso e também no canteiro. Eu me lembro de ficar completamente encantada com aquelas frutinhas vermelhas, pequenas, delicadas, penduradas pelo cabinho. Havia alguma coisa mágica em ver uma fruta nascer tão de perto.

Nessas mesmas férias, ganhei um conjunto de panelinhas de alumínio fundido, iguais às da minha tia. Fiquei muito orgulhosa daquelas panelinhas — e isso diz muito sobre a criança que eu já era. Mas nem elas conseguiram superar o fascínio que eu senti pelos morangos.

Eu também tinha um mini liquidificador movido à pilha, e tia Amparo me deixou colher os morangos para fazer um suco. Até hoje eu não sei dizer exatamente o que me fez tão feliz naquele momento. Talvez tenha sido preparar meu próprio suquinho usando meus brinquedos. Talvez tenha sido brincar de comidinha com fruta de verdade. Talvez tenha sido, simplesmente, a alegria de participar do mundo dos adultos do meu jeito.

O que eu sei é que essa cena nunca me deixou.

Eu me lembro do barulhinho do liquidificador, do pezinho de morango, do canteiro, do fim da tarde, dos adultos por perto e da sensação boa de brincar sem pressa. Talvez seja por isso que morango seja minha fruta preferida até hoje. Foi, muito provavelmente, a primeira vez em que me lembro de ter observado uma fruta tão de perto: a planta, o fruto, o gesto de colher.

Talvez tenha começado ali, sem que eu soubesse, uma forma de encantamento com a comida.

Para celebrar essa lembrança, deixo aqui a minha receita de geleia de morango.

Gosto dela com pedaços, pouco açúcar e aquele azedinho natural da fruta ainda presente. Faz muito tempo que eu não compro geleia pronta. Gosto de ver a cor se transformar na panela, sentir o cheiro doce e característico do morango se espalhando pela cozinha e acompanhar, aos poucos, a fruta ganhar outra forma.

Preparar essa geleia me reconecta àquele fim de tarde na casa da tia Amparo. Com o canteiro. Com o pé de morango.E com o barulhinho do meu liquidificador de brinquedo.


Geléia de Morangos


Ingredientes:


2 caixinhas de morangos ou 500g de morangos frescos.

2 colheres (sopa) de açúcar refinado

2 colheres (sopa) de limão ou vinagre de vinho branco


1 potinho de vidro esterelizado.


Modo de Preparo:


Esterilizar o pote de vidro: em uma panela coloque água, um pano de prato no fundo da panela e o potinho. Deixe ferver por alguns minutos. Retire da panela com cuidado e reserve.


Higienizar os morangos e retirar as folhas e cabinhos verdes. Retirar também qualquer parte com amassados.

Cortar em pedaços maiores, se você quiser uma geleia "pedaçuda". Se quiser algo mais parecido com um doce, corte em pedaços pequenos.

Misturar com o açúcar e o limão. Levar ao fogo baixo e deixar ferver.

Se formar uma espuma branca, use uma colher ou escumadeira de inox para retirar assim que ela surgir na superfície. Isso vai deixar a geleia brilhante, com uma cor viva, além de infuenciar no sabor e manter a conservação.

Deixe ferver até que, ao passar a colher de pau ou espátula no fundo da panela, se abra um caminho. Está no ponto quando você contar até 5 para a geleira fechar o caminho.


Como servir


Eu gosto de servir essa geleia no café da manhã, com pão, ricota ou queijo cottage e uma colher generosa por cima.

Ela também vai muito bem em uma tábua de queijos, especialmente acompanhando queijos mais curados ou firmes. A cor viva da geleia, com alguns morangos frescos ao lado, deixa tudo ainda mais bonito à mesa.

Outra possibilidade é usá-la em um lanche rápido da manhã ou da tarde: em um pote, faça uma camada de iogurte, uma de geleia e uma de aveia em flocos. Finalize com mais iogurte e pedacinhos de morango fresco — ou mais um pouco da própria geleia.


Criando memórias afetivas


  • Se puder, transforme o preparo dessa geleia em um pequeno ritual. Vá à feira, escolha morangos bonitos e maduros, e prepare tudo com calma — de preferência pela manhã, para deixar a casa perfumada com o cheiro doce e tão característico da fruta.

  • Se houver crianças por perto, convide-as para participar do processo: lavar os morangos, retirar as folhinhas, observar a transformação da fruta na panela. Pequenos gestos assim costumam ficar guardados por muito tempo.

  • Você também pode colocar a geleia em um vidro bonito e presentear alguém querido. Ou usá-la para compor um café da manhã especial para quem você ama.

  • Ou ainda preparar uma mesa bonita para um chá da tarde com amigos e servir essa geleia com orgulho — como quem oferece não só um preparo, mas também um pouco de cuidado.


Compartilhe uma foto bem bonita e me marque: @verusestudio


 
 
 

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